sábado, 30 de agosto de 2014

Mil dias e alguém

Mil dias em mim habitariam.
Seriam dias como eu. Seriam claros e escuros. Cheios de forma e desformidades.
Eles seriam chuvosos, seriam ensolarados. Seriam em mais de três metades.
Seriam hoje e amanhã ao mesmo tempo.
Seriam inteiros e quebrados.
Seriam mil dias em um dia só.
Seria um grande amor.
Seria uma melancolia sem fim.
Seria mutilação, e seria amor.
Passariam rápido. Também seriam como lesmas lentas.
Seria outras pessoas. Outros dias.
Sobreporiam-se.
Seriam falsos e sinceros. Em um só dia.
Roubariam e conjurariam.
Principalmente, seria ele, todos os dias, em algum lugar lá estaria.
Fosse do jeito que fosse, lá ele estaria.
Atrás de uma nuvem exausta.
Na frente de uma macieira.
Do lado de um casal.
Estaria lá, bastaria procurar.
Ou seria uma grande dor que abate a cidade.
Ou seria um beijo.
Mas estaria lá para que alguém encontrasse para o dia terminar.
Enfim.
Em alguns dias, ele seria tudo.
Seria até as formas das casas.
Seria os pássaros.
Em outros, seria nada em forma de chuva.
Mas não esqueça, sempre estaria lá.
Em todos os mil dias.

sábado, 9 de agosto de 2014

Sabiamente esquecemos


Eles sabiam o que aconteceria.
Qualquer um saberia o que aconteceria dali a alguns meses ou, sendo mais pessimista, ou o extremo oposto disso, a algumas semanas. O que podemos esperar deles? Conheceram-se em meio a batalhas quase perdidas. Por um milagre, se é que eles existem, salvaram-se. Um combatente de guerra pode não morrer em meio a todas aquelas bombas e mortes, não morrer no sentido concreto do fato, mas obviamente haverá alguma morte dentro do "guerreiro". Somos feitos de partes, partes que formam um todo que parece indivisível. Uma parte do guerreiro morre, ele continua vivo no sentido concreto do fato.
Estavam perdidos sem saber que estavam. Encontraram algo que perderam? Não mesmo. Não era de ninguém. Não eram.
Estavam, talvez, onde deveriam estar, se existe destino. Encontraram-se. E ganharam.
Ganharam aquela batalha interna. Uma que existe dentro de cada um se for permitido. Que acontece porque existe falta, o oposto da sobra e até do suficiente. Falta de amor, falta de carinho, falta de atenção, falta de compreensão, falta de paixão, falta de altruísmo, falta de tudo o que se falta.
Estavam perdendo porque chegaram ao ponto de desistir de tentar. Cansaram do tempo. Do tempo que não existe para curar as partes do que se vive. O tempo só tá lá porque o criaram. Apenas, entende-se ou aceita-se, mas tudo permanece e se esvai. Porque tudo vai para o espaço, vai se perder por lá e ser encontrado também. Sendo, assim, o eterno ir e vir das coisas.
Eles estavam juntos, adoravam estar juntos.
Talvez exista destino mesmo. Eles estavam juntos, aprenderam o que deveriam para que aquilo, naquele momento, fosse bom. Aprenderam a compreender o sentimento, seja qual for. Aprenderam que, algumas vezes, se você entende, para de sentir. Outras vezes quer mais, mais, mais numerosas vezes. Criamos nossa própria dor, e a adoramos, ou escolhemos deixa-la ir. Depende de quem somos na hora. Escolheram no mesmo tempo, espaço, momento, dimensão e todas as outras identificações. Tudo prosperou para que desse certo. Quase sempre as pessoas não acreditam no que estão vivendo, acham melhor assim porque é melhor do que a decepção de estar errado por achar que seria para sempre. Eles não. Aprenderam até isso. Que tudo o que devem fazer é estar ali, sem passado ou futuro.
Viviam tudo. Até o medo momentâneo.
Quem sabe elas não sabiam o próximo passo. Algo aconteceu pois estavam discutindo no meio de umas pessoas apressadas. Depois aconteceu outro evento, e outro, e outro.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Antes de acabar


De uma coisa eu sabia, eu sabia o que queria para nós dois naquele momento de nossa vida, da nossa relação.
Também sabia o que a maioria das pessoas imaginam sobre como deve acontecer. Que, não para mim, mas para elas, as pessoas, o certo é o rapaz se ajoelhar e pedir; ele tem que pedir porque será o dono do lar, mesmo que pensem isso inconscientemente.
Na verdade, muitas das coisas nas quais acreditamos estão no inconsciente. Nem sabemos que acreditamos numa determinada coisa, mas temos aquilo como certeza lá dentro de nós, naquela parte em que mora o lado oculto. O oculto que existe em cada um. Alguns até conseguem descobrir um pouco de si mesmo.
Por muito tempo, preocupei-me com o que os outros pensariam de mim. Embora essa época tenha existido em minha vida, finalmente cheguei na aceitação, isso com muito luta - interna.
Quando começamos a nos relacionar, não rotulamos nada. Eramos nós dois, sem explicações do que acontecia, sem regras, sem rótulos ou cronometro. Porque, assim como eu, aquela outra pessoa também não queria mais a autorrejeição por olhar-se com olhos alheios, e não com os próprios olhos. É uma coisa estranha nossa atitude como ser humano. Temos nossos próprios olhos, olhamos através dos outros primeiro. Temos nossa pele, sentimos através dos outros primeiro. Ou, pior, só "experimentamos" através dos outros.
Disse:
  Tenho uma coisa para nós dois. É uma coisa boa, para mim. Deve ser para você também. Mas não posso te dizer o que é agora, quero estar muito bonita, arrumada.
Então eu ganharia um jantar feito por uma pessoa que era, naquele momento da minha vida, a minha pessoa favorita. Seria dois dias depois.
Fui para a casa onde ele me serviria. E eu estava linda. Estava muito bem, estava feliz, tão feliz que felicidade irradiava de dentro de mim, por isso estava linda.
Quando uma pessoa está indecisa sobre algo que será para a vida inteira, ela sente um tipo de medo que é inato do ser humano. Quando ela finalmente escolhe qual caminho seguir, o medo vai desaparecendo enquanto um sentimento de grandiosidade vai surgindo. Eu tinha que tomar uma decisão. E fiquei muito contente por tomá-la.
Podia acontecer várias coisas, mas dentro de mim estava um brilho colorido, como fogos de artifícios, brilhoso, colorido e expansivo.
Era uma pergunta, no entanto, apesar de pergunta ser espaço para escolha de direção, estava claro que aconteceria tudo para o meu bem.
Por algum motivo inconsciente, ou simplesmente pela cultura em que fomos criados, há coisas que queremos muitos fazer ou ser. E eu queria ser realmente alguma coisa de alguém antes de tudo acabar. Claro que nasci de algum lugar, vivi em um lugar, fui coisas de pessoas por quase obrigação, fui o que tinha que ser, sem escolha ou reclamação. Família. Antes de acabar, eu queria realmente ser algo de alguém, que fosse escolha, fosse pergunta e, depois, total certeza. Favoritar e ser favorita.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Cem dias

Fazia um tempo que não se fazia isso.
Mas relembrar pode ser bom, pode ser.
Também pode ser o avesso.
Há coisas que marcam muito.
Marca como tatuagem.
Marca como cicatriz.
Marca como ferida que passa sem deixar marcas.
Primeiro, fica ali para que todos vejam.
Depois, depois desaparece.
Ou só ser sentido.
Nem se entende, só se sente.
Há coisas que vêm para ficar.
Ou que parecem que vão ficar.
Ficam, ficam, permanecem.
Foi-se embora.